27 de setembro de 2012

CLÃdestinos




Invisíveis ao sol quente caminharam nus pelo canal, mas os olhos da cidade eram pequenos demais para ver tamanha ousadia.
Com música e poesia eles abriram o coração das pedras, correram para secar, falaram do vento e de palhaços.
Vestida de preconceitos, a cidade ainda cega tateava folhas, espumas e palavras sujas.
Fazia amor e tropeçava pelos poemas construídos pela inutilidade de sua cegueira.
Os moradores se escondiam e fingiam ser feliz, adoravam tramas, viviam de dramas, mas odiavam teatro.
Os loucos cantavam sonetos, fotografavam feitos, beijavam sem leito e dançavam escondidos debaixo da miséria e da moral.
Na cidade não podia amar e a arte era vista como coisa de vagabundos, que no intuito de ser feliz construíam mundos de versos e notas musicais.
Abriram ruas que a cidade não via, saltaram por abismos de desejos e navegaram sem destino.
Mendigavam o dia e não morrer à noite era sua recompensa, adoravam as praças e com elas descobriram que toda verdade era um erro.
A cidade continuava com sua máscara vaidosa sem saber que a vaidade é apenas uma das peles da alma.
A cidade e os artistas conviviam cegos uns dos outros e cruzavam as mesmas ruas por destinos diferentes.
Uns eram donos, outros o inquilinos.
 A cidade doente e os artistas clãdestinos. 

César Félix

20 de setembro de 2012

"no strings attacheds"

Ela era tão linda quanto à liberdade e ele sonhava com tudo aquilo que era impossível.

Ele nunca chorou uma lágrima e ela nunca havia encontrado alguém que não a fizesse chorar. Eram diversos e constantes, diretos e cortantes, amáveis como o vento no papel.
Ele era cercado de pessoas mas vivia sozinho. Ela tinha o beijo de pêssego e adorava viajar. 
Ele virou poeta e ela amante, os dois eram inconstantes, porém, sabiam amar. 
Fizeram dívidas que só pagariam com sentimentos.
Ela construiu família, ele casou com o talento. 
Sem amarras eles voaram alto e ficaram presos pelo tempo. Felizes e presos pelo sentimento.
Eles eram livres e pagaram por isso!


César Félix "sem amarras"
foto de Motivarte, Escuela de Fotografia.



18 de agosto de 2012

"Não importa o que façam comigo... Se eu ganhar, será com você. Se eu perder, será com você".



No teu corpo eu desabo, viro um descalabro, sem inicio e sem fim.
No teu corpo enfim, sou metade de mim, sou o sim e o não.
No teu corpo eu te peço o meu outro reverso,
te cubro de versos, fico submerso na tua aflição.
No teu corpo eu sou gente que gera semente,
sou tempero ardente, natureza sem fim.
Sou livre pecado, sou flecha certeira,
alvo retalhado, corpo sem razão.

Poema:César Félix

Fotografia Joan Crawford and Clark Gable no filme Possessed (1931)



1 de agosto de 2012

amor é para quem tem coragem


Como se o passado não fosse lembrança,
como se amor não tivesse partida,
como se a vida não fosse ferida e
tuas memórias areias ao chão.
Como se a dor resistisse ao fim,
eu sem você sou metade de mim,
estilhaços do tempo procurando um fim,
frase imperfeita, risos em vão.
Como se o nada trouxesse amargura,
mergulhei sem medo na tua aventura,
metade loucura, metade razão.

César Félix

29 de julho de 2012

O quarto


O quarto estava sujo, o cobertor confundia-se a uma toalha molhada de poesia e no espelho a última declaração de amor.

O segundo quarto não sabia às horas, de pedir desculpa, de dizer adeus ou de amar. O tempo definha os ponteiros daqueles que não sabem as horas.

O terceiro quarto partiu e levou junto, duas caixas de livros, uma caixa de brinquedos e um saco de memórias. Tudo cabia numa carroceria velha e empoeirada. Bem ao lado, um retrovisor quebrado, para que não se pudesse olhar pra trás.

O quarto estava triste, os livros entreabertos, os bilhetes rasgados, o coração partido e um ventilador ligado, para que não se pudesse juntar os pedaços.

César Félix

27 de julho de 2012

Memórias de um mercado dialético

Ele caminhava lentamente porque esperava a fogueira delirar por ti.

Voltava pra casa triste do boteco que perdeu.

A Noite quente soprava na floresta e a escuridão abraçava o medo recolhendo o que restava de dor.

Entre um brilho e uma estrela se contava um universo, mas ele não sabia contar.

Ele recolhia seus fantasmas e dedilhava uma música para perguntar quem sou.

O espaço está vazio, nem putas, nem bêbados, nem vida e são apenas três horas da manhã.

Sobram tijolos, placas e elogios.

Ele olhou para o espelho da água barrenta e faltavam pessoas.

Apenas as estatuas se cumprimentam. Nenhum mendigo dorme na calçada ou lamenta que um dia houvesse sido rico.

Um mercado sem negócios, um novo sem vida, um velho ausente de memória.

Um mercado dialético: O novo mercado velho.

Amanhã ele acorda cedo, mas encontrará uma cidade exausta que não dormiu para juntar seu lixo.

A consciência está limpa e alimenta a sombra e o ego da mentira de um ator que já não brilha.

Passa um rio, uma flor, um vento quente e a lembrança do esquecimento de uma poesia pendurada no portão.

Ele convivi ali, tendo como companheiro um carvalho que chora, uma planta que não obedece, um estado que não existe e uma lua que não respeita a hora de dormir.



César Félix




23 de julho de 2012

O poema do pensamento e o pensamento do poema




O seu olhar sobre as coisas é o que você pensa das coisas, mas nem sempre o que você pensa das coisas é como as coisas se pensam.

Por isso, quando você pensa uma coisa e tenta descrevê-la da forma que pensou,nem sempre o resultado do que você pensa, corresponde aquilo que você pensou.

Isso acontece quando você pensa a poesia, mas não consegue pensar o poema.

Um é pensamento vivido, o outro é pensamento pensado.

Pensamos que pensamos certo, pensamos que pensamos o real, mas pensamos somente o ideal.

O problema é que o ideal é real e o que pensamos que é real é também um ideal.

O bom poema acontece quando o que pensamos de forma ideal se aproxima ao máximo do pensamento real.

É o pensamento visual, virtual, irreal transformado no pensamento visceral, material, pensamento sentido, quase como uma dor de barriga.

Pensamento que não é mais pensamento é a fotografia do momento, o rabisco, a imagem em movimento.

Pintura na parede, fotografia, um verso de cordel. Nota musical, um gesto definido, uma declaração de amor, um bilhete no papel. Lamento transcrito em signo e símbolos escondidos numa torre de babel.

Um parto, um nascimento, um invento de pensamento, que não é pecado nem isento, é opinião pura do que fomos e somos em forma de pensamento.

A poesia é o pensamento do momento.

O poema é quando conseguimos tirar a poesia do pensamento.



César Félix
Fotografia: Agnes Toth





13 de julho de 2012

mandaram buscar o médico para curar a dor sem saber que amor não tem cura



Eu reconheço os atalhos para se incendiar o tempo quando dentro de mim inflama uma vontade insana de teus carinhos loucos. A fuga é solitária e o único caminho aponta para um poema que se faz ouvir pelos ouvidos moucos. Pela manhã a poesia apaixona e a noite vira cama de dormir borboletas. Quando criança insistiam para que eu sonhasse, diziam que todas as respostas para o amor estavam nos sonhos. Eu cresci sabendo que o sonho é um bom lugar para estar, mas acontece que há dias que a gente perde o sono!




césar félix

10 de julho de 2012

a invenção do amor


“No início eu te olhava sem maldade, te olhava sem vontade, quase que pela metade. Depois passei a te olhar sem idade, como um pai ensinando uma criança a olhar pra lua, respondendo a perguntas que ele nunca teve respostas. E meu olhar parecia estar nu somente para te ver, somente para te ter, somente para esquecer. E aprendemos a escolher nossas flores, resistir nossas dores, pecar em todas as cores, inventar nossos amores em portões de cemitérios...”


César Felix

Olhei para o tempo e esqueci das horas


"E tudo se perdeu entre nossos dedos, inclusive à vontade e o parir do agora, o olhar do tempo colorido, o refletido sonho em nossa memória. O hoje parece que pulsa ao contrário e a nossa juventude caminha sem rumo, sem endereço fixo, sem gosto, cambaleando procurando um prumo. Eu por aqui acerto o teu desenho, rabisco palavras e vejo o teu retrato. Daquilo que fomos perdeu-se a utopia, daquilo que somos só nos resta os fatos. Ontem pedia por um recomeço, hoje refaço obedeço a demora. Caduco um poema depois eu esqueço, eu olhei para o tempo e esqueci das horas".


César Félix

Poema pra não te esquecer II


“Eu te via todas as noites quando sonhava, eu te lia todos os dias quando estudava, descobria teus segredos loucos, me jogava dos abismos poucos, eu voava na escuridão. Eu pensava que era perfeito, te amava e ficava sem jeito, eu pecava pedindo perdão. Noite a dentro na rua molhava, verso a verso da minha agonia, quanto mais eu sonhava contigo, mais poema pra ti eu fazia”.


César Félix

10 de junho de 2012

aprender com os Artesãos


A vida da gente é um verdadeiro teatro, nossos pais escolhem o papel que vamos representar e a sociedade cobra para que a gente interprete bem. Por isso vivemos interpretando e frustrados.
Vivemos constantemente reprimindo nossos desejos em detrimento do papel que interpretamos.
Mais que atores, somos artistas, mais que representar, precisamos criar.
Aprender sem escolas e sem professores.
É preciso passar pela experiência de estar em silencio, e aprender a respeitar o silencio.
É preciso estar abandonado, aprender a respeitar a solidão.
É necessário estar sozinho, sem ninguém para te socorrer.
Somente aí, neste momento é que saberás como és capaz de criar.
É preciso aprender, depois disso, é preciso aprender a desaprender.
Pegar a vida com as mãos, igualmente a um artesão, e recomeça-la.
Se ti ensinarem uma educação em que não se sente o cheiro do vento, da chuva, da terra e do fogo, desconfia desta educação.

Texto e fotografia: César Félix




1 de janeiro de 2012

é tempo de valorizar as diferenças!

O tempo é de valorizar as diferenças, a melhor maneira de fazer isso é apostar nas semelhanças. O tempo é de buscar poder, a melhor maneira de ser poderoso é “mandar obedecendo”, ou seja, dividindo o poder. O tempo é de liderança, mas a que se conquista, não a imposta. A crítica deve iniciar pela ação e não pela reclamação. Pois melhor maneira de se opor ainda é com sonhos, não com lágrimas. Bom ano pra gente!


César Félix



29 de dezembro de 2011

Que venham!


Que venham as flores e através delas,
teu colo e a certeza do teu amor.
Que venham os problemas e acompanhado deles,
a paz e a rebeldia necessária para enfrentá-los.
Que venha o sucesso, acompanhado dele,
a certeza de que nada que se construiu foi sozinho.
Que venha teu corpo em fúria,
tua alma em chamas e teu pecado refletido em atitudes.



Texto: César Félix
Foto: Denise Valério
A modelo é Antonia Wallig

11 de novembro de 2011

A pele que nos habita


Estou sozinho e a cidade me consome.
Das entranhas da loucura queimo no vento que corta e vou sem destino.
A noite fere, as pessoas nao se olham e tua ausencia marca meu caminho.
Inebriado de ti nao somos dois.
Juntos somos apenas um.
Tua pele na minha pele.
Sem que eu exista, sem que eu insista, sem que eu resista.
A carne queima, a avenida corre e nao esconde o conflito de saber quem sou.
Entre tua ausencia e minha solidao dorme um tapete de Historia.
Clareando a pele infinita,
a pele que a luocura incita,
a pele que nos habita.

Cesar Felix
Avenida paulista, 10,11,11.

3 de setembro de 2011

A peste emocional

Não existe mais veneno agrícola, mudaram o nome para “defensivo” agrícola; Coceira virou alergia; trabalhador virou “colaborador”; roubalheira virou “esperteza e honestidade agora é “lerdeza”; desvio de dinheiro virou ajuste fiscal, liberdade virou infidelidade; criança feliz transformou-se em criança com distúrbio de Hiperatividade.

O mundo está doente de caráter, uma peste emocional tomou conta da humanidade.

As pessoas dizem que se amam, mas na primeira falta de dinheiro, o amor acaba.

As pessoas dizem que respondem a Deus, mas quando perguntamos: Quem é Deus? Elas não sabem.

As pessoas dizem que são amigas, mas brigam a primeira dívida.

As pessoas dizem que são responsáveis, mas não pagam a pensão do filho.

As pessoas dizem que estão apaixonadas, mas se mãe não aceitar elas não casam.

Pedem democracia e invadem países, pedem tolerância, mas criticam a diferença.

Dizem que são livres, mas trabalham como escravos.

Odeiam os pedófilos, mas desejam as primas.

São contra estupros, mas compram a mulher amada.

Fazem leis que garantem moradia para todos, mas não fazem reforma agrária.

Falam de saúde, mas só gastam com doenças.

As pessoas adoram arte, mas seus filhos devem estudar “direito”.

Dizem que devemos ouvir pelo menos “dois lados”, mas só publicam o lado que paga.

Democracia é quando eu falo, quando a outra fala é ditadura.

Certo estava Nelson Rodrigues: “E mais vale uma lesão pulmonar do que uma lesão de caráter, uma lesão de alma. As únicas doenças que realmente, me assustam são as morais.


Texto: César Félix

3 de agosto de 2011

Somente a arte para nos salvar


Mais um dia de chuva e o esgoto acusa que minha sociedade está acuada.

Mais um dia escroto e em qualquer local da cidade um homem bate na mulher.

Já se contam dez mil surras nos últimos três anos.

A floresta queima, as leis obedecem, o político rouba e a sociedade silencia anestesiada de corrupção.

No mercado não se vende mais bananas, vendem-se cargos.

A televisão cega, a escola deseduca, a igreja moraliza e os namorados têm medo de beijar.

Foi criada mais uma polícia.

A polícia do amor revista para ver se no casamento ama-se o mesmo sexo.

A criança, o pai e o avô tornam-se vitimas do pessimismo e da putrefação da sociedade em que vivemos.

A liberdade está em dúvidas!

A arte foge com medo de ser comprada e o delírio transformou-se em crime.

Dentro dos livros escondem-se o otimismo revolucionário da poesia.

A dança não se entrega, a música luta para não morrer e o teatro planeja o próximo ato de desobediência.

É na atitude poética que conseguiremos nos embriagar e parir do mundo que virá.

A arte é o fogo de uma vela que não se apaga.

Uma carga mágica e libertária.

Um fogo que nega criando e sopra sem apagar.

Uma vela voltada a iluminar todos os ventos, todos os seres humanos e todas as tempestades.


Texto: césar félix

18 de julho de 2011

No fim...

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: um estribilho antigo, um carinho no momento preciso, o folhear de um livro de poemas o cheiro que tinha um dia o próprio vento...




Poema: Mário Quintana
fotografia: Thiago Bora

Eu pedi essa foto para o Thiago Bora (amigo que conheci em florianópolis). A idéia era que ela fizesse parte de um poema meu. Aconteceu que no caminho um poeta me roubou, depois que li isso, confesso, nada ficaria melhor nesta foto do que essa poesia do Mário Quintana.

Nossas palavras


Parece música mas não é música.

Tem bússola, tem luz e à noite tudo brilha.

Esse é o projeto do meu corpo.

São folhas secas invisíveis que se deslocam ao infinito.

Aparece o vento, voa, trás o nada e tudo dorme na cabeça.

Todos mereciam ouvi-la, mas, ela era delicada e silenciosa.

Sobrevivia do fogo.

Voava rápido como o vento.

A bike bala sai da lama e trás o silêncio de dentro da floresta.

A noite o painel acende e ala sai:

Zunindo, zunindo, zunindo...



de césar félix para Ryana Gabech e Toucinho





17 de julho de 2011

Poema do vento


"Um poema de todas as cores,

um poema de todas as flores,

revestido de vários odores,

com gosto de vários sabores,

um poema de muitos amores,

nunca escrito pelos escritores,

desejado pelos sonhadores,

semeado de cinco mil flores."


Poema de césar Félix sobre rabiscos coloridos de Silmara Luciano



15 de julho de 2011

Fragmentos de uma infância que perdemos

De verdadeiro só nos restou à infância, de mudança só nos restou brincar e fingir que estamos loucos. O mágico está nu e a razão que nos prometia luz nos levou para o porão. Sinto fome de tudo, mas as pessoas só me oferecem comida. Quem não brinca não sonha, é por isso nos proíbem de brincar, porque o sonho é o único direito que não se pode proibir.


César Félix – “fragmentos de uma infância que perdemos”

9 de julho de 2011

Mas ontem, Eu recebi um Telegrama Era você de Aracaju Ou do Alabama

Do Aracaju tem Caju que a carne parece boca,
o Alabama não sei, pois nunca me deu a louca,
a carta veio do acre, das asas da borboleta,
chamava pelo teu nome e uma foto branco e preta.
Uma fotografia clara, com fios que vem lá do sul,
com plantas que enfrentam riscos,
antenas em cruz que falam.
Eu fiquei aqui pensando qual a cor que me abala,
seria o azul verde escuro ou seria de cor clara?

Foto: clara figueredo
Texto: césar félix

4 de julho de 2011

somos um mas não somos iguais

A cada instante que vejo no espelho teu sou eu,

A cada palavra presa um silêncio me constrói,

combinamos como ateus, como se não fossem pares,

como se não fosse Deus.



Eu te vejo como eu, mas não saíste de mim,

não saíste do meu tempo porque ele era o teu,

olhamos como um, mas não somos nada iguais,

homem feito de mulher que recusa olhar pra trás.



Nos refletimos no outro porque tua dor era a minha,

nos calamos sem cantar porque em ti não sou eu,

sonhamos como crianças em cadeira de ninar,

Amamos como adultos mas somos do mesmo par.

para Josi Biondo

Poema: césar félix

29 de junho de 2011

como dizer que te amo se não tenho versos?

Eu até que tento não gostar de poesia, juro que tento te esquecer um dia, deixar de lado meus poemas e nunca mais recorrer ao alfabeto. Não vou mais ouvir cartola, não pegarei mais na viola, vou quebrar o disco do Noel e ficar quieto. Mas como é que vou olhar pra lua, dizer para todos que minha alma é tua, dizer que te amo se não tenho versos?



Música: Último desejo - Noel Rosa/  texto: César Félix

29 de maio de 2011

O tempo passa e eu não te esqueço

O tempo passa e eu não te esqueço,
o tempo encurta, eu escureço,
o tempo vibra, eu adormeço.  
Voa tempo, passa e me leva para o céu,

voa tempo, por que me causa tanto sofrimento?
Por que insistes tu em me dizer que não?
Por que não apagas dela o meu sorriso?
Por que me lembras, se eu sei que não?
O tempo não existe, a alma não existe, ela também não existe.
Só existe o eu, que penso tudo isso,
mesmo sendo ateu.
Poema: César Félix

31 de março de 2011

Minha forma de lutar é amando

Basta a paz e eu já serei feliz.

Basta que eu ame e minha vida será completa.

No amor o retorno não se paga com dinheiro, à moeda do amor é atenção.

No amor como na arte a pergunta é quem define e o troco vêm em forma de carinho.

O amor é inquieto porque não é escravo.

Não existe arte comportada ou reprimida porque toda arte sugere amor.

Entro em guerra quando estou cercado, por isso amo, minha arma é amar.

Amo para vencer a guerra.

Basta a paz e eu serei feliz.

Para Ananda Knoll
fotografia e poema: césar félix

7 de fevereiro de 2011

A idade do eterno

Ela não precisou mais que vinte anos, bastava essa primavera e ela seria completa.
Mas quando fez vinte anos ela queria mais.
Aventurou-se como se tudo fosse a primeira vez, o beijo, o bar, o gozo e tinta no cabelo, roupa colorida, o namorado da amiga, o samba que seduz a vida, o arrepio, a passeata, a madrugada, a ressaca e a moral.
Ao inferno com a moral!
E ela viajou, aprendeu línguas, conheceu lugares, casou, separou, desejou filhos e arrependeu-se.
Trabalhou madrugadas, declamou Boudelaire,  embalou crianças e foi ao teatro.
Viveu sessenta anos correndo atrás dos vinte.
Fez oitenta e poucos depois soprou velinhas de noventa e três.
Nunca encontrou o que procurava.
Tudo que fez após aos vinte era imperfeito.
viveu na incompletude, não admitia a perfeição.
Morreu completa,
aos vinte anos de idade. 

Texto: César Félix
Fotografia: Karina Dias

2 de janeiro de 2011

A menina da cafeteria


Ela tinha o sorriso mais bonito de cafeteria.

Estava lá todos os dias, cadeira cativa, jornal em punho e nenhuma xícara de café, adorava sorvetes. Sempre muito discreta, quase como uma esposa que sabia trair.

Aquele sorriso me beijava e tinha um sabor que só se é possível quando se beija uma mulher de touro.

Imediatamente lembrei-me de Antonia, minha primeira paixão, uma mulher que poderia muito bem trocar seu nome para desejo. A mulher que me ensinou que para um homem ser feliz é necessário apenas de uma noite.

Antonia tinha apenas 22, mas agia como e tivesse trinta: Eram suaves seus movimentos, delicadas suas atitudes. Ensaiava cada gesto antes de executá-los e adorava cinema. Talvez eu nem gostasse dela, talvez por ela eu não tivesse amor, se casado eu não duraria mais que duas noites com aquele desejo.

Certo dia eu estava tenso e Antonia me socorreu com uma massagem, lá pelas tantas veio a pergunta: Quantas mulheres você já pagou para deitar com você?

Eu, na qualidade de canalha ético assumido não me importei e respondi com a frieza de um advogado: Uma, somente uma Antonia, você.

Ela fingiu que acreditou, terminou a massagem, deitou sobre meu corpo e adormeceu, desde aquele dia não me cobrou mais um centavo.

Mais tarde, ao ver Antonia dormindo fiquei cativado por sua pele leite e me perguntei: Por que será que elas gostam tanto dos feios? Não tive tempo para arrependimentos, quando dei por mim eu já havia gostado da aventura, estava acostumado às camas de Antonia. Por muito tempo Antonia foi minha poesia predileta.

Amei somente duas coisas na vida e sempre fui muito confuso com elas, as mulheres e a poesia. Não sei se escrevo poemas por causa das mulheres ou se me interesso por mulheres pelo fato de elas me oferecerem ótimos poemas. Tenho a impressão que sem a poesia minha paixão por elas não existira, ao mesmo tempo em que sem elas não existiriam metade de minhas poesias. Gosto delas porque gosto de poesia.

Poetas diante da beleza agem como vampiros diante do sangue, amam para não morrer. Nunca tive vontade de morrer, mas admiro os que sabem morrer de amor. A única inveja que tive dos mortos é que nunca choveu no dia do meu aniversário.

Volto a organizar minhas letras e lá se vai mais um poema. Ela aceitou a oferta, pegou meu telefone e retornou um bilhete em que estava escrito: 23 horas, em frente à biblioteca da floresta.

Pegou um sorvete de cupuaçu, sorriu de lado e fechou a porta da cafeteria.

Morrerei de madrugada, a hora que morre os que sabem morrer.

Texto e fotografia: César Félix

27 de dezembro de 2010

Poema de vôo


O corredor era apertado e o carrinho era um refeitório,
ela sorria como uma velha amiga, me conhecia das noites do empório.
pensei que um dia eu fosse encontrá-la, só não pensei que fosse nas nuvens,
ela olhava eu paralizava, apavorado meio sem costume.
Sem jeito me falou suave, palavra inteira com sabor de fruta,
Não me contive perdi o controle, afastei o lenço e lhe beijei a nuca.
ela gemia e não se rebelava, tremia as mãos, o corpo, o refeitório,
fiz um poema no canto da boca e para acalmá-la eu beijei os olhos.

texto: César Félix

17 de dezembro de 2010

Memórias de um velho fotógrafo

Caminhei sobre a ponte metálica às 3 da manhã e ela estava tão solitária quanto eu.

Lembrei da multidão que a cercava no dia da inauguração.

O segundo distrito encontrava-se iluminado e triste.

No mercado velho somente almas.

As putas e a vida foram expulsas do ambiente e um bêbado chorava abraçado numa estatua, última recordação de algo semelhante a gente.

Naquele minúsculo quadrado de tempo, nada parecia como antes.

O espelho não refletia, os ouvidos estavam moucos, a cidade dormia e o apartamento estava vazio como minha vida.

E lá se foi mais um suspiro de história, pequenos reflexos de vida registradas nas entranhas de quem as viveu.

Antes, minha mente funcionava como uma máquina fotográfica e registrava tudo. Agora falha. São tantos clics que já não lembro o primeiro, são tantos fatos que já me cansam os passos, são tantos quadros que a parede de minha alma ficou pequena.

Muito do que marcava uma época, agora já não vale nada. Muito do que não se valia, agora é o único registro. Aquela foto embaçada, aquele foco distorcido, aquela mão que treme é o único coração que pulsa.

Mergulho na história como se mergulhasse n`água e deslizo sonâmbulo por entre as feridas abertas da memória.

A dúvida me empurra para a vida e eu recuso o que sempre sonhei.

A chuva cai sobre Rio Branco e molha somente o que tenho de sede.

Minha boca seca cala e arde esperando que a cidade amanheça para que eu durma e não precise pensar.

O esquecimento ajudar anestesiar a dor.

O silêncio exige silêncio, mas os passos continuam e eu os ouço, como se alguém caminhasse sobre minha cabeça.

Texto: César Félix